A próxima grande tendência de consumo talvez não venha da economia
Durante décadas, as grandes transformações no consumo estiveram ligadas a fatores relativamente previsíveis: rendimento, inflação, crédito, tecnologia ou alterações demográficas.
Mas uma nova força começa a ganhar terreno nas decisões de compra dos consumidores.
Ela não tem origem no retalho.
Não é algo que se aprenda na indústria.
E também não começa na economia.
Tudo começa pelo apetite.
Com a chegada ao mercado brasileiro das versões nacionais dos medicamentos à base de semaglutida, uma discussão que, até há pouco tempo, se limitava ao meio médico começa a alargar-se às empresas dos setores alimentar, das bebidas, do retalho, da higiene pessoal e dos bens de consumo.
A questão já não é apenas saber quantas pessoas vão utilizar esses medicamentos.
A pergunta é:
O que acontece ao mercado quando milhões de consumidores passam a comer menos?
O Brasil já é o país onde mais se fala sobre o GLP-1 na América Latina
Os dados da Worldpanel by Numerator mostram que o tema já atingiu um nível de visibilidade invulgar.
Hoje:
- 76% dos brasileiros afirmam conhecer os medicamentos para a perda de peso
- Em 2025, esse índice era de 70%
- O aumento foi de 6 pontos percentuais em apenas um ano
Nenhum outro país da América Latina apresenta um nível de notoriedade semelhante.
Ao mesmo tempo, a sua utilização ainda é bastante restrita.
Apenas:
- 2,4% dos agregados familiares brasileiros têm atualmente algum utilizador destes medicamentos
Entre as classes A e B:
- A penetração sobe para 4,3%
Os números revelam um mercado ainda pequeno, mas com um enorme potencial de expansão.
E é precisamente essa combinação que torna o fenómeno tão relevante.
O conhecimento já é imenso.
A adoção ainda não.
O Brasil reúne condições únicas para uma transformação
O potencial de impacto torna-se ainda mais relevante quando analisado na perspetiva dos hábitos alimentares.
Entre todos os mercados analisados pela Worldpanel by Numerator na América Latina, o Brasil apresenta a menor percentagem de consumidores que afirmam manter uma alimentação equilibrada.
Ao mesmo tempo:
- O interesse pela saúde está a aumentar
- O controlo de peso ganha importância
- O bem-estar torna-se uma prioridade
Neste contexto, os medicamentos à base de GLP-1 podem funcionar como aceleradores de mudanças que já estavam em curso.
Não criam necessariamente novos comportamentos.
Mas podem acelerar a sua adoção.
Os sinais já se fazem sentir antes mesmo da adoção em massa
A pesquisa da Worldpanel, realizada pela Numerator, revela que o simples interesse pelos medicamentos já está associado a mudanças na intenção de consumo.
Entre os consumidores que utilizavam ou consideravam utilizar GLP-1 em 2025:
- 59% afirmavam ter reduzido a compra de bebidas açucaradas
- 55% reduziam o consumo de alimentos gordurosos
- 51% reduziam a compra de produtos ricos em açúcar
Estes dados sugerem algo importante:
O impacto dos medicamentos não se limita à redução do apetite.
Ele muda a forma como as pessoas encaram a alimentação.
O Reino Unido mostra o que pode acontecer quando o mercado amadurece
Se o Brasil ainda se encontra nos primeiros capítulos desta história, o Reino Unido dá-nos uma ideia do que poderá acontecer nos próximos anos.
Entre 2024 e 2026:
- A presença de utilizadores de GLP-1 nos lares britânicos passou de 2,3% para 6,3%
- O número de utilizadores atingiu aproximadamente 1,9 milhões de pessoas
E os efeitos sobre o consumo foram significativos.
Mais de metade dos utilizadores:
- Relata sentir menos vontade de comer
- Afirma sentir menos «ruído alimentar»
Além disso:
- 75% reduziram o consumo de chocolates
- 72% reduziram o consumo de snacks e salgadinhos
O resultado refletiu-se diretamente no retalho.
Durante o período analisado:
- As famílias com utilizadores de GLP-1 gastaram menos 780 milhões de libras em supermercados
- Compraram menos 299 milhões de unidades
- Gastaram, em média, 418 libras por ano a menos do que os restantes agregados familiares
Algumas categorias podem vir a enfrentar uma pressão sem precedentes
Se a adoção aumentar no Brasil, certas categorias tenderão a sentir os efeitos em primeiro lugar.
Entre elas:
- Chocolates
- Petiscos
- Refrigerantes
- Produtos ricos em açúcar
- Artigos associados ao consumo por impulso
São categorias que, tradicionalmente, dependem de momentos de prazer e de apetite espontâneo.
Quando a fome diminui, a dinâmica muda.
Mas toda a transformação cria novos vencedores
A mesma mudança que exerce pressão sobre algumas categorias cria oportunidades para outras.
A experiência internacional aponta para um potencial de crescimento dos produtos associados a:
- Proteína
- Nutrição funcional
- Saciedade
- Saudabilidade
- Bem-estar
Além disso, abre-se espaço para novos formatos.
No Reino Unido:
- 40% dos utilizadores gostariam de encontrar porções mais pequenas nos restaurantes
- 26% gostariam de opções específicas para utilizadores de GLP-1
O impacto não se limita ao supermercado.
Abrange o setor da restauração, as lojas de conveniência e a alimentação fora de casa.
A transformação vai além da comida
Talvez um dos dados mais surpreendentes do estudo britânico não se refira ao setor alimentar.
Os utilizadores de GLP-1 aumentaram as suas despesas com:
- Enxaguantes bucais
- Pastilhas elásticas
A razão está associada aos efeitos secundários relacionados com a secura da boca, conhecidos informalmente como «Ozempic mouth».
Os dados mostram que os impactos indiretos podem afetar setores aparentemente alheios à perda de peso.
Saúde.
Higiene.
Cuidados pessoais.
Bem-estar.
Todos passam a fazer parte da mesma conversa.
O que está em jogo para a indústria
O fenómeno dos GLP-1 ainda é pouco difundido no Brasil.
No entanto, os indicadores relativos ao conhecimento, ao interesse e à preocupação com o peso sugerem que esta situação pode mudar rapidamente.
E quando muda, não altera apenas o comportamento individual.
Altera a lógica de categorias inteiras.
A experiência britânica mostra que esta transformação não deve ser vista apenas como uma tendência no domínio da saúde.
Ela pode representar uma das mudanças mais significativas no comportamento de consumo da próxima década.
Insight-chave
O impacto dos GLP-1 não se limita a fazer com que as pessoas comam menos. Consiste em redefinir o que elas valorizam, compram e priorizam, tanto dentro como fora do cabaz de consumo.
Perguntas frequentes
O que são os medicamentos GLP-1?
São medicamentos originalmente desenvolvidos para o tratamento da diabetes, mas que também promovem a perda de peso ao aumentar a sensação de saciedade e reduzir o apetite.
Quantos brasileiros conhecem estes medicamentos?
De acordo com o Worldpanel da Numerator, 76% dos brasileiros afirmam conhecer os medicamentos para a perda de peso à base de GLP-1.
O uso destes medicamentos já é comum no Brasil?
Ainda não. Apenas 2,4% dos agregados familiares brasileiros têm, atualmente, algum utilizador destes tratamentos.
Quais são as categorias que podem ser mais afetadas?
Chocolates, snacks, refrigerantes e produtos associados ao consumo por impulso tendem a enfrentar uma pressão cada vez maior à medida que a sua adoção aumenta.
Que categorias podem beneficiar-se?
Os produtos ricos em proteínas, os alimentos funcionais, as soluções orientadas para a saciedade, o bem-estar e a nutrição especializada apresentam potencial de crescimento.

